Kobayashi-san Chi no Maid Dragon – A Chuva Nos Aproxima

O slice of life é um gênero bem curioso. Se executado mal, pode parecer uma grande perda de tempo, algo sem rumo e sem qualquer engajamento emocional. Mas com uma certa delicadeza e atenção a pequenos detalhes, uma narrativa slice of life é capaz de entregar os mais simples e relacionáveis sentimentos. E é exatamente isso que Kobayashi-san Chi no Maid Dragon faz, com os adicionais de dragões moe, uma animação fenomenal, e uma estrutura que preza pelo dinamismo e frescor da atmosfera de cada cena. Mas neste artigo não pretendo falar das inúmeras qualidades da série, e sim sobre um único elemento: a chuva.

A chuva é um elemento de comum significado para muitas narrativas ficcionais. Constantemente presente e relevante em romances góticos, da época de Poe, e presente como símbolo no audiovisual desde Akira Kurosawa, ela é principalmente um sinal de melancolia. Está presente como significante em muitas situações de tragédia, de luto ou de qualquer resolução de arco com um impacto negativo para os personagens. A chuva também é muito ligada a separação e solidão. O que é bastante natural, afinal de contas quando chove, costumamos nos recolher à segurança dos nossos lares.

E, bem, como um símbolo tão intrínseco à ficção, já foi explorado elaboradamente antes. Sua ressignificação que me vem à mente mais de imediato é “Singing in the Rain”, mas a série que realmente me fez entender suas possibilidades foi Maid Dragon.

Nos primeiros episódios da série, Tooru dispersa a chuva com seu imensurável poder. Cinco episódios depois, em um espelhamento, ela entende que não precisa fazer de novo e escolhe deixar o amuleto de Kobayashi levar a chuva embora.

Ao longo de todo o sexto episódio do novo anime queridinho da Kyoto Animation, o núcleo que mais toma tempo e chama atenção é o do Takiya. É curioso vê-lo junto de Fafnir pela combinação de dois seres que apesar de muito diferentes, têm a mesma característica antissocial. Para Fafnir, que, assim como Tooru, tem um poder esmagador, isso é ainda mais intensificado, já que ele não precisa dormir ou mesmo de dinheiro para se sustentar.

Mas é engraçado como, mesmo conversando muito pouco enquanto moram juntos, os dois se dão muito bem. Fafnir encontra em Takiya um escape do mundo conflituoso exterior. Os dois convivem, nenhum tirando muito espaço do outro mas, como ficam juntos, se apoiando como podem e enquanto o tempo passa. O dragão amaldiçoado, rancoroso com os humanos, encontra no colega de quarto uma companhia valiosa. E esse sentimento, em dado momento do episódio 6, se traduz nele largando o próprio guarda-chuva e compartilhando um único com o nerd colega de Kobayashi.

Na cena que acabei de descrever, a chuva ainda tem como significado o conflito, a solidão e a melancolia, mas o que ela causa são sentimentos opostos a isso. Ambos os personagens escolhem largar a solidão de seus próprios guarda-chuvas e compartilhar um mesmo, mostrando que, através de boas relações, os conflitos unem as pessoas. O que é muito propício de se mostrar para esses personagens em específico, porque o que justamente traz Fafnir a casa de Takiya é seu rancor, sua maldição, e também sua inabilidade (que se transformava em agressão) para com outras pessoas. Essa última característica, inclusive, provavelmente se aplica ao Takiya, já que ele é alguém pouco sociável. Fafnir ainda se aventura na chuva, em meio aos humanos que tanto lhe despertam ódio, para passar com um tempo e criar uma memória com seu amigo.

E a exploração desse símbolo não termina nesse núcleo -apesar dessa ser sua aplicação mais tocante na série-. Tooru, Kobayashi e Kanna também estão sob a chuva. É curioso como a de mentalidade mais infantil brinca na chuva, talvez mostrando um pouco de como crianças conseguem ver um lado brilhante até nos momentos mais nebulosos.

Mas o foco dramático dessa cena está mesmo no casal principal. Tooru faz o mesmo que Fafnir e abandona seu guarda-chuva, mas faz consciente do clichê de se proteger da chuva junto da pessoa amada. O que é bastante meigo. Nós sabemos que a dragão protagonista foi se abrigar na casa de Kobayashi para fugir diretamente de uma batalha que perdeu. E, assim como vemos a personagem gostando da vivência no mundo humano, a vemos aconchegada ao lado da amada enquanto dividem um pequeno guarda-chuva.

Aqui voltamos à cena onde a dragão empregada repensa sobre deixar a chuva passar e o episódio termina não com um clima quente, ensolarado, mas sim com as nossas três protagonistas calmamente esperando o tempo melhorar, enquanto aproveitam a companhia umas das outras dentro de casa. Não deixando que a chuva as separe ou as deixe pra baixo, mas sim encontrando seus aconchegos nas relações interpessoais mais íntimas. 

E o amuleto de Kobayashi, bem, não era tão eficiente para mandar o mau tempo embora. Ao invés, era uma simples representação de sua nova família que, sim, com o passar das estações, afastaria seus conflitos e inseguranças. De forma muito mais eficiente do que se dispersasse as nuvens na força bruta, como fez sua maid no primeiro episódio, porque a chuva pode não passar assim rápido, mas a aproximação que ela traz enquanto cai é o que importa.

Seja para você, um grande dragão, ou para um casal de pequenos pássaros…

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