One Punch Man – Um Herói Não Precisa Ser Reconhecido

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É difícil imaginar que um gag mangá independente publicado no site do autor de forma completamente descompromissada e que não tem qualquer coesão (ou quase) tenha, de fato, um tema.

Quero dizer, One Punch-Man é uma grande sátira à super-heróis e uma piada com spectacle creep. E nesse aspecto, é uma sátira principalmente à personagens estupidamente poderosos que protagonizam tantas discussões internet afora.

E, ok, isso é um tema.

Mas estou falando de um tema mais “sério”, um tema que realmente faça o espectador pensar. E sim, o mangá o tem. É bem aquele tipo de tema que fica no ~ sub-texto ~. Mas antes de tudo, é bom deixar claro que não é exatamente um tema bem executado. Principalmente por causa da inconsistência do Saitama como personagem. Parece que o autor confundiu ser desmotivado com simplesmente ser incoerente. Então vezes o personagem colabora com o tema, vezes não.

Mas enfim, que diabos de tema é esse? (abrindo a temporada de spoilers do mangá a partir de agora)

Bem, no mundo pop, o super-herói é, além de um personagem, um arquétipo. Sendo pioneiros não só no meio dos quadrinhos mainstream, mas também na cultura popular em si, esses personagens deixaram de ser, bem, personagens e se tornaram imagens, símbolos. A imagem se tornou mais poderosa que a revista em si. Cronologia, coerência com o universo ou qualquer coisa do tipo foi pisoteada pela noção do inconsciente coletivo formada em cima desses arquétipos. Uma imagem de imponência, de algo que vem de cima, sempre em uma pose que o engrandece e fortalece sua presença.

superman-batman-alex-ross

O “O super-herói” e “a máscara por trás do homem”, respectivamente.

E o grande -que nem é tão grande- tema de One Punch-Man é que o Saitama não tem ABSOLUTAMENTE nada disso. Ele se veste como um super-herói, com capa, collant e luvas e botas de uma cor diferente do resto do uniforme, mas é tudo tosco. Até o biotipo dele mostra como o personagem NÃO segue uma imagética heroica, já que ele é careca e tem uma cabeça no formato de ovo. Nada de queixo quadrado e topete com gel.

Saitama

A própria proposta do personagem acabar tudo com um único soco é desinteressante. E isso se reflete até na fama do personagem no mundo. Ele é tão poderoso que é desacreditado. Por não dar o sangue, não suar, sofrer e se sacrificar, todo mundo o encara como um ladrão de fama. E aí a subversão da imagética idealizada do herói deixa de ser quebrada só no visual e entra no enredo, também. Porque o personagem, por mais que seja quem acabe com os maiores problemas de ameaças iminentes, não se vende e, por isso, não é reconhecido. E vender a imagem é essencial para um herói. Tanto no mundo de One Punch-Man quanto no mundo da editora de comics. Um heróis fica mais poderoso na medida em mais pessoas compram sua revista. Não é pra menos que Hulk, Wolverine e Batman hoje são muito mais “Saitama” do que eram no passado.

Strong

Definitivamente não atrai as pessoas por causa da ~aura~ de protagonista

E, como disse, isso está no mundo de OPM. O King é um personagem que existe só para ser a imagem de um herói poderoso, mas que na verdade não passa de um NEET. E ele roubou todas as glórias do Saitama simplesmente por ter uma cicatriz maneira, um queixo quadrado, ser alto e fazer um barulho intimidador quando está com medo.

E é com a posição do King na organização dos heróis que a gente chega no contestamento que a obra faz sobre o que se entende por um super-herói nos dias de hoje: ser herói NÃO é uma questão de mídia, de status, ou de aparência. É o que você faz. Além do King, o Genos estabelece uma clara dualidade com o “caped baldy” nesse sentido. O ciborgue que é todo estiloso, tem um fã clube e que já é rank-S é sustentado pela gag de estar sempre apanhando, mesmo com a pose sisuda. E enquanto isso seu mestre, um clace-C tosco, é quem resolve a situação.

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O King ainda derrota monstros fazendo pose, graças à forma como vendem sua imagem

Para quem por acaso está lendo isso enquanto só assiste ao anime, vale destacar o que acontece pós destruição do meteoro, em um momento que já começa a dar certos indícios dessa abordagem. Todo o episódio é centrado em uma contestação da imagem do Saitama, que salvou as pessoas da cidade de morrerem, mas é culpado pela destruição da mesma. Os irmãos Tank Top enfrentam o personagem não tentando bater nele, mas sim influenciando a opinião pública. O que faz o nosso herói mostrar para todo mundo o porquê de ser um verdadeiro herói, por fazer o que está ao alcance para ajudar, mas sem se importar com o que os outros acham disso.

E há muito mais para se comentar. O Sweet Mask, por exemplo, defende um herói classe-S como uma idealização do herói que nós aqui no mundo real vimos como o super-herói. A organização é uma grande briga de egos, com subgrupos que brigam por status e heróis que adoram se aparecer para a câmera, buscando assim serem mais reconhecidos, mas fazendo pouquíssimos para resolver o que são mandados para resolver. E no fim, quem faz o trabalho que foi confiado à heróis de alta patente é um careca estranho que estava ali só para resgatar um gatinho de uma garotinha. E ele não leva a glória, porque ele não precisa. Um verdadeiro herói não se vende.

Hoje em dia essa é uma questão bastante relevante. Muitos se posicionam por causas sociais para poder postar suas foto no Instagram e sua tribo curtir. A humanidade só é humanitária quando isso “dá like”. Os heróis que nós veneramos são os heróis da mídia e por isso esperamos pela mídia para sermos heróis. E tudo isso quando um ato heroico não compartilhado ou não reconhecido pode ser o ato de maior sinceridade. E é no mínimo interessante ver como um simples mangá de piadas de 3 páginas consegue incutir essa reflexão nos leitores.SCREW THIS

O texto já está fechando por aqui (aaawwwww), mas gostaria de recomendar pra você que leu ou não o mangá, ou que está só assistindo ao anime, o capítulo 33.5, chamado “A Solitária Hora do Lanche de um Herói”, de One Punch-Man. É uma história extra, então não vai ser spoiler lê-lo. E é onde o Yusuke Murata melhor trabalha em cima desse tema. Mesmo você que não conhece OPM pode ler. Acho esse capítulo tão bom que um dia até faço um review só dele.

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