Berserk 341 – O Caminho Até Aqui, O Bem, O Mal e a Natureza Humana

Post - Berserk O Caminho Até Aqui

É uma tarefa traiçoeira resumir Berserk até o capítulo atual. Essa é uma série com tantas camadas, tantos personagens e tantas nuances durante seu desenvolvimento que qualquer resumo não faria jus ao que ela é no todo. Mas como os capítulos atuais não envolvem todas as temáticas e todos o personagens, vem comigo que vamos focar em um ponto específico!

Uma questão de bem e mal ou a natureza humana?

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A dualidade entre Guts e Griffith sempre existiu, desde muito antes de Falconia, ou do Femto, ou mesmo do Eclipse. Enquanto um personagem era seguido por muitos, ambicioso, de aparência delicada, outro tinha uma aparência bruta, vivia pela espada e era um mercenário sem grupo. Enquanto a espada de um era elegante, a do outro era tão grande quanto ele pudesse segurar. O aspecto que distingue essa dualidade pré e pós-eclipse é o religioso.

Após Griffith se tornar Femto, uma camada de fantasia muito mais visível apareceu e muitas referências religiosas foram adicionadas. O Falcão, logo após tomar um dos atos mais repudiados pelos leitores de mangá, se torna um mensageiro de deus, vindo a ser em seguida uma espécie de messias para os habitantes daquele mundo violento e condenado. Ele age tão benevolentemente que alguns chegam a especular que ele pode ser o anticristo, mas como isso concerne ao futuro da obra, deixo para comentar em outra oportunidade.

A questão é que tudo o que veio com os apóstolos após o Femto é de alguma maneira uma referência religiosa. Muito se tira da religião hindu, mas a maioria dos aspectos mais diretamente ligados ao enredo são referências à Bíblia e ao catolicismo, ou a mitos considerados pagãos graças à mesma religião na idade média. E tudo isso, em Berserk está ligado a demônios, seja da religião católica, pagã ou mesmo uma ou outra referência à mitologias mais antigas.

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Ou seja, o mangá é bastante direto em ligar símbolos de pureza e salvação com ódio e em mesclar esses símbolos com outros que estão naturalmente ligados à impureza e maldade. Os apóstolos são, na prática, demônios, a mão de deus faz cultos sagrados que envolvem sacrifícios, o padre é um apóstolo, um mercenário sanguinário também está na mesma categoria do padre e deus é, além do regente do mundo, a manifestação do ódio. E essa relação do mangá é bastante crua, já que os demônios, que são apóstolos, matam, estupram e fazem tudo o que se encaixa como “mau”.

Mas essa subversão entre o que é bem e mal não é tão simples assim. E para nos aprofundarmos nessa complexidade, voltemos ao assunto Griffith vs. Guts.

Quando o Falcão Branco renasce no eclipse, esse cada vez mais começa a ser representado pela cor branca. Deixa de ser só algo que está no personagem e passa a ser uma identidade que permeia tudo o que o envolve. E o Miura é extremamente competente em quase “desenhar com o espaço vazio” nessas representações. Enquanto isso, o Guts se torna o espadachim negro e tudo o que o permeia é a escuridão.

E tal dualidade não se acentua só no visual. Guts é o mocinho, o protagonista e uma vítima de um dos atos mais covardes que qualquer um lendo esse texto já leu, mas o que o mantém de pé não é nada mais que ódio. Ele não luta carregando um motivo nobre, luta com sede de sangue. A representação de seu espírito é literalmente um cão do inferno, que acentua o ódio dentro de si e o torna incontrolável, ferindo qualquer um que ficar no seu caminho, mesmo que seja uma pessoa que ele deseja proteger.

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Por outro lado, Griffith, o vilão, quem acabou com a vida de Guts, o líder dos demônios na Terra, controla a violência dos seus subordinados, traz o fantástico para o mundo e o usa para unificar as nações, criando assim uma civilização avançada. E não é uma nação onde as pessoas são alienadas, é uma legitimamente próspera e pacífica. Mesmo seus segredos mais sujos são para o bem da população e não fazem mal a ninguém.

Há ainda mais profundidade nessa questão. Afinal, a atual posição do líder do Bando do Falcão coloca o Guts na posição de um possível assassino do salvador do mundo. Aliás, a própria ideia de “salvador do mundo” é questionável não só pelo Griffith ser tratado como o vilão do mangá, mas também porque quando ele não é o Falcão Branco, o messias de um novo mundo, ele é Femto, um dos mensageiros de deus, que, como já citei, é uma manifestação do ódio. Não se vê muito esse personagem em ação, mas fica claro só pelo design que ele é um lado muito mais sombrio do que Griffith aparenta ser nos capítulos atuais do mangá.

Isso tá complicado de mais pra um resumo, mas vamos nos aprofundar mais um pouco.

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Pensando bem, a própria ideia do Griffith ser o vilão por causa do eclipse é questionável. O personagem estava tão fragilizado, tão enfraquecido, com sua vida e seus sonhos esmagados, que é compreensível que ele tenha tomado a atitude que tomou. E compreensível não significa justificável, só para lembrar. O mesmo vale para o Guts atualmente. Ele pode acabar tomando uma atitude que pode prejudicar um país inteiro, mas o ódio dele é extremamente compreensível.

Berserk se esforça tanto para fazer o leitor compreender as ações dos personagens que esses tornam-se tangíveis. Os sentimentos deles são tão intensos e complexos que mesmo vendo o acontecimento de fora, é fácil se deixar levar junto com os personagens. Quando o Griffith se sente perdido com a ausência do Guts, o que ele sente? Ele amava o Guts? O via como único amigo? O via como um soldado importante? Mas um amigo para o Falcão não seria alguém com um sonho como ele? A guerra tinha acabado, então por que se preocupar tanto com um soldado que debandou? São perguntas deixadas sem resposta para que você e eu nos coloquemos na situação de alguém tão fragilizado quanto.

Berserk - Eclipse

“Quão delicioso. Eu sinto tudo de novo. Amor, ódio, prazer, dor, vida, morte, tudo aqui para aproveitar, bem na frente dos nossos olhos. A verdadeira natureza do homem. O demônio está aqui e agora.” – Slan

Essa mistura da subversão de bem e mal e do esforço para dar justificativa às ações que se encaixam nesses conceitos nos retorna à pergunta inicial: atitudes podem ser julgadas como boas ou más ou elas são só frutos da natureza de cada um? Os apóstolos são demônios que estupram pessoas, mas o Guts quando veste a armadura por completo em certo momento também tenta estuprar a Caska.

Essa atitude é da natureza dos apóstolos e do Guts ou ela é influência externa, seja esse meio externo um deus, uma armadura, um demônio ou mesmo o próprio destino? Essa influência expõe a verdadeira natureza do ser ou cria nele o sentimento?

Com essas perguntas chegamos aos capítulos atuais, na visão do Rickert. Vi muita gente achando esse arco em Falconia parado, mas a verdade é que o que o guia são justamente essas questões. E quem é posto para julgá-las é o ex-membro do Bando do Falcão. Durante os capítulos, ele vê todos esses lados descritos acima. Vê a utopia, os demônios, o Griffith, o Pandemonium e serve então como um terceiro ponto de vista.

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A própria conclusão desses questionamentos do ponto de vista do Rickert rejeitam a ideia de bem e mal e se focam em um fato: o Griffith não é mais o Griffith. No fim, para o personagem, não importa o que ele fez no passado, porque é compreensível. E também não importa se demônios lutam ao seu lado. O que importa é que o líder do Bando do Falcão se rejeitou. Rejeitou sua natureza, seu próprio “eu”.

O arco em si tem seu propósito sim e se encaixa muito bem tematicamente, por outro lado, por mais que eu tenha puxado tanto o saco desse mangá que, de fato, é muito incrível, a conclusão do arco em si, englobando mais especificamente os capítulos 340 e 341, foi bem fraca.

A construção de tudo foi bem executada, até. O velho do estábulo ter alguma motivação que apareceria em algum momento, as invenções do Rickert, o conceito do adversário e até mesmo a motivação dos kushan. Mas o clímax que converge tudo isso foi de forçar a suspensão de descrença.

A filha do ferreiro saindo da casa para ser pega pelo apóstolo nem sentido fez. Ela insiste que quer sair porque estava preocupada com seu amigo, mas ela sai bufando QUANDO ESTAVA TUDO SOB CONTROLE! E isso só para criar um cliffhanger que culminaria na aparição do velho do estábulo. Foi bastante triste apelar para um clichê desses e ainda executá-lo tão displicentemente. Até porque, além de não fazer sentido, um momento crítico como aquele ser deixado sem conclusão do jeito que foi no capítulo 340 é uma declaração de que nada de mal aconteceria com a garota.  Logo, por consequência dessa deixa de merda do capítulo anterior, o 341 saiu extremamente prejudicado.

No entanto, é interessante ver esse grupo do Rickert se formando. Será que eles vão se juntar ao Guts? Será que vão ser uma “facção” alheia à essa disputa? Não dá para saber, mas resgatar o kushan que perde para o Guts no pré-eclipse é fazer uma conexão interessante entre os personagens. Afinal, já mostra que temos alguém forte, experiente e com alguma relação com o protagonista nesse novo grupo.

No mais, é um pouco decepcionante ver que a fantasia em Berserk cresce sem consequência. O Rickert criar um lança-foguete de madeira que ele consegue usar tão normalmente é um spectacle creep que vai contra o aspecto principal do mundo que a série constrói, de ter elementos fantásticos, mas tudo ainda ter um peso muito real. A espada gigante do Guts não veio de graça, o braço mecânico não fica sem consequência e a magia da armadura muito menos. Enquanto isso, essa tecnologia que vem aparecendo pelas mãos do ex-membro mais novo do Bando do Falcão parece (não dá para ter certeza ainda, mas já se tem indicações) só uma solução fácil para aumentar a escala das coisas.

Ah, e até o próximo capítulo, porque vai ter texto de capítulo a capítulo SIM! Então se liga!

NmmJzEN

P.S.: muitas das imagens foram pegas desse texto aqui, que tem cara de ser excelente, mas como está em francês fica difícil de confirmar: http://www.discordance.fr/berserk-de-kentaro-miura-regards-au-fond-de-labime-35115

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5 Respostas para “Berserk 341 – O Caminho Até Aqui, O Bem, O Mal e a Natureza Humana

    • Provavelmente os resumos não devem reaparecer tão cedo nos textos de Berserk, hehe.
      Talvez quando um capítulo pedir pelo entendimento de um aspecto da série do qual ainda não falei eu volte com um. ESPERAMOS que o Miura continue com o mangá mensalmente como está fazendo, assim posso ficar tranquilo quanto à isso, haha.

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