As Narrativas Não Lineares de Baccano! e Durarara!! (ou, como unir a forma ao conteúdo)

AS NARRATIVAS NÃO LINEARES DE BACCANO! E DURARARA!

Sim, tenho certeza que você pensou nas piadinhas clássicas sobre os nomes das séries.

Sempre admirei obras que exploram ao máximo o que uma mídia pode oferecer, unindo a forma ao conteúdo. Isso pode ser feito de diversas maneiras, mas neste texto darei um maior foco a um aspecto estrutural: o uso das narrativas não lineares. Nesse tipo de narrativa, não se segue uma cronologia, o tradicional “início, meio e fim”, mas segue de forma descontínua, com saltos no tempo e espaço onde ocorrem as ações dos personagens propriamente ditas. Mas por que utilizar esse elemento? Obviamente não pode ser algo gratuito e sem motivo, e é aí que entra a união entre a forma e o conteúdo de uma obra. Afinal, é o conjunto que contribui para o todo, não? Para exemplificar, há dois animes em que me fascina o uso de tal elemento, sendo estes Baccano! e Durarara!!, dos quais são adaptações (ambas dirigidas por Takahiro Omori) de suas respectivas séries de novels escritas por Ryogo Narita.

Então, comecemos pela série de 2007, Baccano!. Melhor do que uma sinopse qualquer, o dialogo inicial entre dois personagens ilustra exatamente o que eu quero. Nele, o Vice-Diretor do jornal Daily Days e sua assistente, Carol, estão investigando sobre uma série de eventos estranhos envolvendo o expresso transcontinental Flying Pussyfoot, e, no fim, acabam em uma discussão por onde começar a enumerar os diversos eventos que estão relacionados com esse caso (desde 1771 até os anos de 1930)  e as pessoas, ou melhor, as personagens envolvidas. É interessante notar que, em seus 10 minutos iniciais, a série logo deixa claro seus temas principais: por onde se inicia uma história? Quem é o personagem principal dela? Qual é a melhor maneira de transmitir essas informações para os outros? Afinal de contas, o que é uma história? Porém, mesmo com essas questões levantadas logo no começo, a sensação do espectador é, em geral,  de confusão. “O que caralhos está acontecendo aqui?”, bom, essa foi a primeira frase que eu disse após terminar de assistir ao primeiro episódio.  E é justamente essa sensação de desordem que faz o começo (e todo seu andamento) ser tão bom.

O Vice Diretor do jornal Daily Days e sua assistente, Carol

O Vice Diretor do jornal Daily Days e sua assistente, Carol

Toda essa confusão se dá pela forma de como os acontecimentos são mostradas ao espectador. Em todo episódio, a série transita entre três períodos diferentes: 1930, em que ocorre uma espécie de guerra entre máfias em Nova York; 1931, quando o expresso transcontinental Flying Pussyfoot parte pela primeira vez desde sua inauguração; e 1932, em que o jornal Daily Days tenta enumerar e organizar todos os fatos relacionados ao incidente do ano anterior, com a locomotiva citada anteriormente. Ou seja, trata-se de uma narrativa não linear.  Além disso, em cada uma dessas linhas temporais há uma grande gama de personagens relevantes não só para o que acontece no período em que estão inseridos, mas para os outros anos também (para se ter uma ideia, há em torno de 30 personagens no anime, enquanto na light novel tem ainda mais). Como eu disse, inicialmente, a sensação que prevalece ao espectador é de desordem, mas com o passar dos episódios, novas informações são reveladas e tudo parece fazer mais sentido, principalmente a organização cronológica dos fatos. É uma espécie de um grande quebra cabeça, do qual o espectador o resolve junto com os jornalistas do ano de 1932, a partir da interação entre as personagens envolvidas de diferentes linhas do tempo. Dessa forma revelando-se um aspecto metalinguístico essencial à estrutura da série.

Alguns personagens do anime

Alguns dos vários personagens do anime

E esta é a união entre a forma e o conteúdo que citei no começo do texto. O fato da própria estrutura de Baccano! refletir os temas discutidos faz com que a série seja coerente e coesa em praticamente todos os sentidos. É uma narrativa extremamente competente, que só enriquece a maneira de como o anime aborda essas questões de cunho metalinguístico. Não só isso, o roteiro ainda se fecha muito bem, especialmente do ponto de vista temático. Há toda uma conclusão aos questionamentos levantados logo no começo da série por Carol e o Vice Diretor, mas que não entrarei em detalhes por motivos de spoilers. Aliás, um detalhe interessante é o nome do anime: “Baccano”, em tradução livre do italiano, significa algo como “algazarra”. Conveniente, não?

Em contrapartida,  Durarara!! (só comentarei sobre a primeira temporada, lançada no ano de 2010) também se utiliza do mesmo recurso narrativo de Baccano!, mas o que ele reflete tematicamente é diferente da série anterior. Os primeiros episódios parecem desconexos um do outro, no sentido de cada um ter um ponto de vista e narração de diferentes personagens do elenco sobre o que acontece no distrito de Ikebukuro. Por conta disso, é mostrado ao espectador diversas vezes um mesmo acontecimento, porém, sob a visão de diferentes personagens em momentos diferentes. Portanto, umas das principais distinções entre o uso da narrativa não linear em Baccano! e Durarara!! é o fato de que, naquele, essa característica está diretamente relacionada ao tempo cronológico (dando destaque aos anos de 1930, 1931 e 1932), enquanto neste, esse aspecto está diretamente relacionado à noção de espaço, especificamente o urbano.

Comparação entre Ikebukuro de Durarara!! e na realidade

Comparação entre Ikebukuro de Durarara!! e da realidade

O tema principal de Durarara!! é justamente esse. Enquanto Baccano! aborda temas que envolvem a cronologia e o funcionamento de uma história, aqui há questões como: quem são as pessoas que ocupam a cidade? Por qual motivo elas vêm à esse espaço? Como se relacionam?  Afinal, o que é a cidade? Há outros temas envolvendo a cidade que a série aborda, mas é a partir destes que a estrutura narrativa da série se modela: desde seus clímax e twists até a unidade de cada episódio.

Definido isso, a curva dramática que é construída gradualmente e conduzida de forma muito competente até o climáx na primeira metade, reflete todas essas questões relacionadas ao funcionamento da cidade,e, principalmente, às relações entre as pessoas que vivem neste espaço. Como dito anteriormente, os episódios iniciais parecem desconexos um do outro por apresentarem pontos de vistas diferentes sobre um mesmo acontecimento, mas o desenvolvimento se pauta numa teia de relações entre as personagens que se torna cada vez mais complexa,e consequentemente, a curva dramática acompanha essa ascensão, até o climáx no episódio 11 (não me adentrarei em spoilers sobre as personagens e os acontecimentos em específico, mas comentarei sobre o impacto temático e estrutural que esse episódio causa na série. Leia por sua conta e risco).

É nesse episódio onde se torna clara a união que há entre a narrativa não linear e os temas citados: a estrutura da série reflete a própria cidade! Neste ponto, foi bem mais importante destacar como toda a cidade está interligada, através dessa complexa teia de relações entre as personagens, do que os plot twists propriamente ditos. Também é interessante ressaltar que essa união entre a forma e o conteúdo não se deu somente por um aspecto estrutural, como também visual, utilizando a paleta de cores no cenário a favor da narrativa. E partindo para um lado um pouco mais overthinking, acredito que toda essa construção tenha sido feita para transmitir uma das principais mensagens de Durarara!!, ao meu ver: a cidade não só é composta por prédios, carros, poluição e uma grande massa cinzenta; mas sim por, sobretudo, pessoas. Um pouco longe demais, talvez? Pois é, mas gosto de pensar dessa maneira.

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Toda aquela massa cinza passa a ter cor. A cidade é viva, e está toda interligada

Enfim, antes de terminar,gostaria de destacar que nem tudo é flores no uso das narrativas não lineares. Em Baccano!, por exemplo, há menos problemas por ser uma série curta, fechada e redonda, mas por Durarara!! ser um anime maior, com mais personagens e estar em andamento traz alguns problemas relacionados ao ritmo dos episódios (principalmente se assistidos semanalmente) e o fato do plot não avançar tanto. O build up é lento e gradual, mas o pay off, na maioria das vezes, compensa a lentidão de antes.

Mesmo assim, a graça de ambos é justamente observar como essa narrativa vai aos poucos se construindo e ganhando um caráter temático cada vez maior. Eu, particularmente, não gostaria tanto de Baccano! e Durarara!! se não fosse pela presença desse elemento.

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5 Respostas para “As Narrativas Não Lineares de Baccano! e Durarara!! (ou, como unir a forma ao conteúdo)

  1. Gosto bastante do uso desse tipo de narrativa nas obras do Narita. A forma que ele relaciona os personagens em diferentes momentos de tempo e espaço é admirável, embora confusa. E mesmo repetindo a fórmula em Durarara!!, é algo completamente diferente e genial.

    Quando penso em não linearidade, me vem a mente Kyousogiga. Toda a confusão do início é resolvida somente no fim, mas acaba sendo uma experiência muito gratificante. Enfim, acabou batendo a vontade de rever Baccano!. Ótimo texto!

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigado pelo comentário, Fernando!

      E, realmente, o autor parece gostar de brincar com a narrativa em suas obras num geral, mas com temáticas diferentes. Uma versatilidade admirável.

      Não sei direito como é a novel, mas pelo o que eu li por aí, a estrutura do anime é diferente do material de origem. Cada volume trataria de um período, enquanto no anime, cada episódio transita por 3 linhas de tempo diferentes. É verídico isso?

      Por fim, atiçou ainda mais minha curiosidade em Kyousougiga. Já estava querendo ver faz um tempo, por conta da diretora ser a mesma de Kekkai Sensen, mas você ressaltar o fato dele também utilizar essa não linearidade deu um up ainda maior. Novamente, obrigado.

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      • Li alguns capítulos da novel de Durarara!! e não me recordo muito bem, mas acredito que sim, tanto que a segunda temporada do anime adapta somente a partir do quarto volume da novel.

        Veja Kyousogiga sim, tem um estilo bem peculiar tanto narrativa como visualmente.

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      • Primeiro quero dizer que o seu texto é muito interessante. Sou super fã das franquias do Narita.
        Sobre as Novels de Drrr! Eu li a primeira, já faz um tempo então não tenho tão fresco na memória,mas lembro q ela é um pouco menos caótica que o anime, pois ela se divide apenas em 3 focos narrativos, que são os três personagens que participam do chat (não vou dar spoiler aqui). A primeira novel rendeu a primeira metade da primeira temporada do anime, já a segunda metade adaptou as Novels 2 e 3, é por isso que Drrr! x2 começa no quarto livro.
        Eu confesso que acho q essa temática da cidade é bem mais forte no primeiro arco do que nos demais, mas não considero isso como um defeito. A história trás outros temas e amplia seus horizontes, até pq, há um limite no qual ele poderiam desenvolver uma longa trama (q já passa de 12 volumes de livros) tendo um único tema.
        Tanto é que a narrativa a partir do arco da Saika e dos lenços amarelos já ficou um pouco mais LINEAR e menos caótica, apesar de usar bastante o recurso dos focos para criar suspense.

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      • Obrigado pelo comentário, Rafael! E desculpa pelo atraso da resposta, aqui no wordpress não estava aparecendo a opção de resposta.

        E sua colocação sobre as novels foi muito boa. Interessante como a direção do Takahiro Omori possuiu uma presença positiva no anime, contribuindo ainda mais para o argumento criado pelo Narita. Os dois são realmente uma ótima dupla, heheh.

        Também concordo com sua afirmação quanto à temática da cidade: ela é bem mais presente no começo do anime, funcionando de certa maneira como uma introdução daquele ambiente. Tanto que, no texto, só comentei sobre a primeira metade do anime. Não que ela ainda não esteja presente, mas de uma maneira bem mais sutil do que no começo. Na segunda metade, a estrutura não linear foi mais utilizada para fins narrativos, mesmo, como criar a sensação de suspense e até mesmo de urgência, como você bem citou.

        Espero que nas próximas temporadas (só assisti o x2 Shou, ainda não vi o Ten) as temáticas se expandam cada vez mais, se não esse tipo de estrutura não passa a funcionar tão bem como antes.

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